Desmond MacCarthy, crítico literário inglês, publicou, na edição de 2 de outubro de 1920 do jornal New Statesman, sob o pseudônimo Affable Hawk [Falcão Afável], uma resenha do livro de Arnold Bennett, Our Women. Chapter on the Sex-Discord, na qual o crítico endossava as opiniões misóginas de Bennett, expressas no referido livro, sobre a capacidade criativa das mulheres. Virginia Woolf escreveu uma réplica, publicada na edição de 9 de outubro, sob o título “O status intelectual das mulheres”, contestando os argumentos de MacCarthy, que foi respondida pelo crítico no mesmo número do jornal. Na edição de 16 de outubro, Virginia volta à carga, contestando a resposta de MacCarthy, o qual se limita, em réplica publicada no mesmo número, a escrever: “Se a liberdade e a educação das mulheres são prejudicadas pela expressão de minhas opiniões, não discutirei mais”. São essas duas cartas de Virginia que são reproduzidas abaixo.

A primeira carta:

Senhor,

Como a maioria das mulheres, sou incapaz de suportar a depressão e a falta de autorrespeito que a censura do sr. Arnold Bennet e o louvor do sr. Orlo Williams – se não for o inverso – certamente me causariam se eu fosse ler seus livros por inteiro. Provo-os, portanto, aos goles, pelas mãos dos resenhistas. Mas não posso engolir a colher de chá administrada em suas colunas na última semana por Affable Hawk. O fato de que as mulheres são inferiores aos homens em termos de capacidade intelectual, diz ele, “salta-me à vista”. Em continuação, ele diz concordar com a conclusão do sr. Bennett de que “nenhuma dose de educação e liberdade de ação mudará sensivelmente isso”. Como, então, explicaria Affable Hawk o fato que me salta à vista e, suponho, à vista de qualquer outro observador imparcial, de que o século dezessete produziu mais mulheres notáveis que o dezesseis, o dezoito mais que o dezessete, e o dezenove mais que os três juntos? Quando comparo a duquesa de Newcastle com Jane Austen, a Incomparável Orinda com Emily Brontë, a srta. Heywood com George Eliot, Aphra Behn com Charlotte Brontë, Jane Grey com Jane Harrison, o progresso em poder intelectual parece-me não apenas sensível, mas imenso; a comparação com os homens de modo algum me inclina ao suicídio; e os efeitos da educação e da liberdade dificilmente podem ser sobrestimados. Em suma, embora o pessimismo sobre o outro sexo seja sempre encantador e estimulante, parece um tanto otimista da parte do sr. Bennett e de Affable Hawk se entregarem a ele com tanta certeza diante da evidência que se lhes apresenta. Assim, embora as mulheres tenham toda razão em esperar que o intelecto do sexo masculino esteja constantemente diminuindo, seria insensato, até que elas tenham mais evidências do que a grande guerra e o farto abastecimento do tempo de paz, anunciá-lo como um fato. Em conclusão, se Affable Hawk deseja sinceramente descobrir uma grande poeta, por que ele não se deixa entreter com uma possível autora da Odisseia? Naturalmente, não posso alegar saber grego como o sabem o sr. Bennett e Affable Hawk, mas tenho, com frequência, sido informada de que Safo era mulher e que Platão e Aristóteles a colocavam, junto com Homero e Arquíloco, entre os maiores de seus poetas. O fato de que o sr. Bennet possa nomear cinquenta indivíduos do sexo masculino que são indisputavelmente superiores a ela é, portanto, uma agradável surpresa, e se ele publicar seus nomes, prometo, como um ato de submissão que é tão prezado ao meu sexo, não apenas comprar seus livros, mas, tanto quanto minhas faculdades permitam, também sabê-los de cor. Vossa, etc.,

Virginia Woolf

A segunda carta:

Senhor,

Comecemos com Safo. Não podemos, como no caso hipotético de Burns,4 sugerido por Affable Hawk, julgá-la meramente por seus fragmentos. Complementamos nosso julgamento com as opiniões daqueles para os quais suas obras eram conhecidas em sua inteireza. É verdade que ela nasceu há 2.500 anos. De acordo com Affable Hawk, o fato de que nenhuma poeta com seu gênio tenha surgido no período entre 600 a.C. e o século dezoito prova que durante esse tempo não houve nenhuma poeta de gênio em potencial. Conclui-se que a ausência de poetas femininas de mérito moderado durante o período prova que não houve nenhuma escritora de mediocridade em potencial. Não houve nenhuma Safo; mas também, até o século dezessete ou dezoito, não houve nenhuma Marie Corelli e nenhuma sra. Barclay. Para explicar a completa falta não apenas de boas escritoras, mas também de escritoras ruins, não posso pensar em nenhuma outra razão a não ser que havia alguma repressão externa às suas capacidades. Pois Affable Hawk admite que sempre houve mulheres com habilidades de segunda ou terceira classe. Por que, a menos que tenham sido impedidas à força, não expressaram elas esses dons na escrita, na música ou na pintura? O caso de Safo, embora tão remoto, lança, penso, alguma luz sobre o problema. Cito J. A. Symonds: “Várias circunstâncias contribuíram para promover o desenvolvimento da poesia lírica em Lesbos. Os costumes dos eólios permitiam mais liberdade social e doméstica do que a que havia na Grécia. As mulheres eólicas não estavam confinadas ao harém como as iônicas, assim como não estavam sujeitas à rigorosa disciplina dos espartanos. Misturando-se livremente à sociedade masculina, elas eram altamente educadas e acostumadas a expressar seus sentimentos num grau inédito em qualquer outro momento da história – incluindo, na verdade, os dias atuais”. E agora, pulando de Safo para Ethel Smyth. “Não havia nada mais [a não ser a inferioridade intelectual] para impedir, ao longo das eras, tanto quanto consigo ver, as mulheres, que sempre tocaram, cantaram e estudaram música, de produzir tantas musicistas em suas hostes quanto os que produziram os homens”, diz Affable Hawk. Não havia nada que impedisse Ethel Smyth de ir para Munique [Leipzig, na verdade]? Não havia oposição por parte do pai? Descobriu ela que a oportunidade de tocar, cantar e estudar música que as famílias abastadas davam a suas filhas tinha como finalidade possibilitar que elas se tornassem musicistas? E contudo Ethel Smyth nasceu no século dezenove. Não há nenhuma grande pintora, diz Affable Hawk, embora a pintura esteja agora ao seu alcance. Está ao seu alcance – se isso quer dizer que há dinheiro suficiente, depois que os filhos homens receberam sua educação, para proporcionar tintas e estúdios para as filhas, e nenhuma razão familiar que exija sua presença em casa. Do contrário, elas devem escapulir o mais rápido possível e ignorar uma espécie de tortura mais incrivelmente dolorosa, creio, que qualquer outra que o homem possa imaginar. E isso no século vinte. Mas, argumenta Affable Hawk, uma grande mente criativa triunfaria sobre obstáculos como esses. Pode ele indicar um único desses grandes gênios da história que brotou de um povo privado de educação e mantido sob dependência, como, por exemplo, os irlandeses ou os judeus? Parece-me indiscutível que as condições que tornam possível que um Shakespeare exista são que ele deve ter precursores em sua arte, deve participar de um grupo onde a arte seja livremente discutida e praticada e deve, ele próprio, ter o máximo de liberdade de ação e experiência. Talvez em Lesbos, mas nunca, desde então, têm sido essas condições a sorte das mulheres. Affable Hawk lista, então, vários homens que triunfaram sobre a pobreza e a ignorância. Seu primeiro exemplo é Isaac Newton. Newton era filho de um agricultor; foi enviado para uma escola secundária pública; negou-se a trabalhar na terra; um tio, clérigo, sugeriu que ele devia ser dispensado do trabalho e preparado para a faculdade; com a idade de dezenove anos foi enviado para o Trinity College, da Universidade de Cambridge.
(Ver o Dicionário Biográfico Nacional.) Quer dizer, Newton teve que sofrer quase a mesma espécie de oposição que sofre a filha de um advogado de interior quando pretende estudar em Newnham no ano de 1920. Mas essa falta de estímulo não é intensificada pelas obras do sr. Bennett, do sr. Orlo Williams e de Affable Hawk. Pondo isso de lado, meu argumento é que não se tem um grande Newton até que se tenha produzido um número considerável de Newtons menores. Espero que Affable Hawk não me acuse de covardia se não tomar seu espaço com uma pesquisa sobre as carreiras de Laplace, Faraday e Herschel, nem comparar as vidas de Tomás de Aquino e Santa Teresa, nem decidir se foi Mill ou os amigos dele que se enganaram a respeito da sra. Taylor. O fato, sobre o qual, penso, devemos concordar, é que as mulheres desde os primeiros tempos até agora trouxeram ao mundo a população inteira do universo. Essa ocupação lhes tomou muito tempo e esforço. Também as sujeitou aos homens e, incidentalmente – se é essa a questão – produziu algumas das qualidades mais adoráveis e admiráveis da raça. Minha diferença com Affable Hawk não é que ele negue a atual igualdade intelectual dos homens e das mulheres. É que ele, juntamente com o sr. Bennett, afirma que a mente da mulher não é sensivelmente afetada pela educação e pela liberdade; que sua mente é incapaz das mais altas realizações; e que ela deve permanecer para sempre na condição em que está agora. Devo repetir que o fato de que as mulheres tenham progredido (coisa que Affable Hawk parece agora admitir) mostra que elas podem progredir ainda mais; pois não consigo ver por que se deveria estabelecer um limite ao progresso delas tanto no século dezenove quanto no século cento e dezenove. Mas não é preciso apenas educação. É preciso que as mulheres tenham liberdade de experiência; que elas difiram, sem medo, dos homens, e que expressem sua diferença abertamente (pois não concordo com Affable Hawk quanto à ideia de que os homens e as mulheres são iguais); que toda atividade da mente seja estimulada, de modo que sempre exista um núcleo de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem tão livremente quanto os homens, e sem nenhum medo do ridículo e da condescendência. Essas condições, em minha opinião, de grande importância, são prejudicadas por afirmações como as de Affable Haw e do sr. Bennet, pois um homem ainda tem muito mais recursos que uma mulher para fazer com que suas opiniões sejam conhecidas e respeitadas. Não tenho absolutamente nenhuma dúvida de que se essas opiniões prevalecerem no futuro nós continuaremos na condição de um barbarismo semicivilizado. Ao menos, é assim que defino uma eternidade de dominação, de um lado, e de servidão, do outro. Pois a degradação de ser escrava se equipara apenas à degradação de ser senhor. Vossa, etc.,

Virginia Woolf

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As cartas acima fazem parte do livro As mulheres devem chorar… Ou se unir contra a guerra – Patriarcado e militarismo, recém-lançado pela Editora Autêntica, e que reúne escritos de Virginia Woolf. Organização e tradução de Tomaz Tadeu.

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