* Por Raimundo Neto *

Quando o almoço da família de Rosa aparece na cena, a ideia de família e núcleo transborda: uma mãe-avó preparou um almoço e lá estão seu filho e a esposa, sua filha e o marido, e as filhas e filho desses. Mas tudo isso aparece para trair: Clarice revela um segredo. Rosa é filha-fruto de uma relação extra-conjugal de Clarice, a maçã-mordida.

São os segredos que afundam as relações presentes na família de Rosa estão expostos no filme “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky, com elenco formado por Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena e Felipe Rocha. É Clarice que escolhe contar antes de morrer parte da história da filha. Ouvi (ou li) alguém dizer que há um cinismo e dureza em Clarice. Não vejo assim: talvez se espere de uma mulher-mãe-avó um modo usual e repetitivo de ser mulher: sempre afetuosa e calma, ponderada, doce, sábia, que se deixaria consumir por um segredo para não destruir a harmonia familiar. Rosa escolhe a revelação. E existe amor e cuidado  nos modos francos de ser outro jeito de mulher.

A revelação de Clarice encontra a angústia de Rosa, as mãos armam-se em perspectiva de fuga, e os olhos de Rosa abrem-se para perguntas: O que é ser mulher e mãe? É aceitar o marido que trai e não sabe ser pai (o que esperam de um), o amigo afetuoso que seduz para satisfazer um desejo qualquer de proteger e enganar e quase se torna amante recorrente, o pai que é sustentado por todas as mulheres com quem namora, o ‘pai biológico’ recém-chegado ao presente e que posterga a intimidade?

Não existe uma natureza essencial que determine uma que é uma mulher, retomei esse pensamento ao sair do cinema. As pesquisas de Rosa para escrever uma peça, dentro da angústia que exige de suas reflexões (cuidar das duas filhas, a ausência do marido que trai e a acusa de insegura, o desejo de desejar o marido apenas se ele for um homem que cuida e tornar-se de fato companheiro) passam por Simone de Beauvoir, e pelo dramaturgo Ibsen, em “A casa das bonecas”; talvez Rosa se identifique com todos os danos causados pelos segredos, como os que desenterram caminhos a seguir na peça de Kenrik Ibsen.

Se Nora, em “A casa das bonecas”, era chamada de “cotovia” pelo marido, no tom de quem diminui e reduz a algo não apenas animal, mas também incapaz de ser nada além do que foi-lhe determinado pela biologia, Rosa, em “Como nossos pais” é nomeada mãe por tudo que submete-se a fazer: cuidar da casa, das filhas, sentir-se “insegura” diante dos flertes do marido, lidar com a figura da mãe e a morte de sua presença, com as impactantes revelações, ceder ao desejo de ser outra. A saída que Norma escolhe, na peça de Ibsen, é uma porta aberta para a dramaturgia de Rosa (que abriu mão de escrever para teatro porque precisava estar presente e ser útero, casa, afeto, carinho).

Outra referência no filme, aos olhos da personagem Rosa, são as fotografias de Diane Goldstein, do projeto “Fallen Princesses”. Rosa olha para o projeto da fotógrafa não apenas uma vez. A questão sobre a construção do ideal de mulher, da beleza feminina, e do que se espera desse ideal de comportamento e beleza (os homens se apaixonam pela ideia que fazem do feminino ou por tudo de real que a mulher é?). Rosa vê A Branca de Neve de Diane Goldstein que segura nos braços duas crianças, e duas outras estão a seus pés, numa sala bagunçada, com um príncipe que, cômodo e confortável, contempla a ilusão da TV, e expressa alguma identificação.

Laís Bodanzky filma as complexas relações familiares, escapando de alguns estereótipos. O roteiro (também de Luiz Bolognesi) é uma narrativa que apresenta uma tensão de modelos: a família que só existe na expectativa e no ideal e a família que vive pelo afeto e através também de desconfortos e muitas dores. Apresentar a personagem Rosa, aos trinta e muitos, questionando o que sentir-se mãe e mulher, enlaçada pela postura displicente e vazia de um homem que não consegue ser nada além de “um cara legal”, é narrar para resistir.

Algumas cenas incorporam objetos que fazem parte da vida (e da morte) de alguns personagens, ou são retratos de lembranças que não se desgastam. A memória ali, sólida e antiga, diz que as famílias não são mais as mesmas, e abre a pergunta O que é ser mãe então? Os objetos aparecem para dar continuidade aos diálogos de falas que impactam, e como algum tipo de complemento, para situar o lugar dos afetos na vida da família.

Jorge Mautner (hilário e genial) interpreta um homem-fanfarra: bom, divertido e de utilidade questionável. Aliás, parece-me que todos os homens presentes no longa-metragem são assim.

Clarisse Abujamra (brilhante, palmas e mais palmas) interpreta uma mulher que não se incomoda com as escolhas que fez e faz. O passado, para Clarice, é um detalhe a ser questionado e revisto, se necessário, apenas se necessário, mas sempre assumido. Clarice tem um brilho nos cantos do riso que soa pura compaixão pelas mulheres que não são como ela.

Maria Ribeiro veste bem Rosa; é espontaneamente sincera, real e possível. Para além de Eva e Norma, para além das ficções religiosas e dramatúrgicas, para além de uma “essência feminina” que diz que se a mulher não for, pelo menos, mãe-sensível-ponderada-controlada-calma-mansa-e-eficaz não é boa.

Se num romance, como diria James Wood, está sempre ocorrendo uma luta entre presente e passado, instância e forma, livre-arbítrio e determinismo, expansão secular e contração religiosa, no filme de Laís Bodanzky, as questões de Rosa são expostas nas crises que nomeio como existenciais (olhar para a existência como sujeito e questionar ‘O que sou?’, em vez de afirmar ‘Disseram para eu ser assim, uma mulher como todas, há séculos e muitas bíblias atrás’). Rosa, em uma cultura nada mais do que machista, tenta encontrar a pessoa que é: para além de Eva, a condenada, a “história horrível” da mulher culpada, o pecado em carne e corpo.

Para mim, na contemporaneidade, Rosa, e a Maria Ribeiro que a vive, é o tipo de mulher que chamo de milagre.

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Raimundo Neto é escritor e crítico literário

 

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