* Por Walnice Nogueira Galvão *

A Guerra de Canudos, se não inaugurou, deve ter intensificado extraordinariamente no Brasil a praxe jornalística de dispor enviados especiais no local dos acontecimentos. Pelo menos quatro jornais importantes — O Estado de S. Paulo, a Gazeta de Notícias, A Notícia e o Jornal do Comércio, estes três do Rio — mandaram a Canudos pessoas que se deslocaram de onde viviam, com o fito exclusivo de informar sobre o que se passava.

O Estado de S. Paulo para isso destacou seu redator Euclides da Cunha, a Gazeta de Notícias enviou Favila Nunes e o Jornal do Comércio comissionou Manuel Benício. Já A Notícia enfrentou algumas dificuldades. Seu primeiro correspondente fora um combatente, o Alferes Cisneiros Cavalcanti, que morrera logo no início da campanha da quarta expedição, no combate de 18 de julho. O jornal então tomara o partido de enviar alguém especialmente para essa missão, escolhendo um de seus redatores, Manuel de Figueiredo, informando de seu cargo e viagem para a Bahia no número de 11/12 de julho. Este, por sua vez, envia apenas três reportagens, que saem publicadas; adoecendo em Monte Santo, volta para o Rio, seguindo para substituí-lo “nosso companheiro Alfredo Silva”, conforme anuncia o jornal a 3/4 de agosto. Alfredo Silva fará, portanto, a maior parte das reportagens. Quanto a Manuel de Figueiredo, continuará imediatamente a utilizar as informações que colhera e que sairão no mesmo órgão, em série que terá o título de Viagem a Canudos”.

Se alguns dos repórteres foram enviados especiais, outro título serve de denominador comum também a alguns deles. Como iam em missão de guerra, os enviados, além de especiais, eram de certo modo especializados, pois Euclides da Cunha era tenente reformado, Favila Nunes coronel, Manuel Benício capitão e Manuel de Figueiredo major, fossem ou não de carreira.

Também militar, porém combatente, é o correspondente d’O País. Trata-se do Tenente-Coronel Siqueira de Menezes, chefe da comissão de engenharia da 4a Expedição, que enviou correspondências publicadas com o título de Cartas de Canudos, anunciadas pelo jornal como provenientes de “nosso ilustre correspondente Hoche”.

 Já Lelis Piedade é chamado invariavelmente de nosso colega nas frases introdutórias à publicação de suas correspondências no Jornal de Notícias, da Bahia, e mesmo mais explicitamente de nosso colega de redação na que sai na edição de 15 de setembro. Secretário do Comitê Patriótico da Bahia, fundado para dar assistência de retaguarda ao Exército, mas no fim da guerra encarregando-se também dos conselheiristas sobreviventes, Lelis Piedade vai e vem entre a capital da Bahia e a sede do Comitê em Cansanção, datando deste lugar ou de Queimadas suas correspondências, mas nunca de Canudos. Segundo informa o Jornal de Notícias de 15 de setembro de 1897, Lelis Piedade dirigira-se ao sertão encarregado pelo Comitê Patriótico de “estabelecer um posto intermediário no arraial de Cansanção, onde possam ter algum descanso os feridos que descem de Canudos”; paralelamente, faz estas reportagens.

São facilmente identificadas as reportagens de Euclides da Cunha, de Manuel de Figueiredo, de Alfredo Silva, de Favila Nunes, de Lelis Piedade, e, embora irregularmente, mesmo as de Hoche: o jornal estampa ao pé delas o nome do autor. As de Manuel Benício não aparecem assinadas, mas encontram-se precedidas de palavras elucidativas da autoria; já as de seu substituto, que fez as duas últimas reportagens, são encimadas apenas pelas seguintes expressões: “o correspondente a quem encarregamos de ir ao teatro da guerra, em substituição ao Sr. Capitão Benício” ou nosso correspondente, tão somente.

O repórter que é mencionado como “correspondente especial do Jornal do Brasil, junto às forças em operações em Canudos” — palavras que introduzem sua correspondência na edição de 26 de julho de 1897 — não é identificado nem por assinatura nem por alguma explicação do jornal. Tampouco o do Diário de Notícias, da Bahia, embora suas reportagens sejam invariavelmente apresentadas como matéria enviada por nosso correspondente.

Se Euclides da Cunha fez carreira literária e foi parar na Academia Brasileira de Letras, o destino dos demais repórteres tomou rumos diversos, alguns deles menos obscuros que os outros. Hoche foi fartamente reconhecido como pseudônimo de Siqueira de Menezes, sergipano (1852–1931) e militar de carreira, que morreu como marechal e foi governador de seu estado. Pernambucano, mas radicado em Niterói, era Manuel Benício, nascido em 1861. Este já estivera como repórter d’O Tempo no Sul, durante a Revolta da Armada. Foi também professor e depois tabelião de notas; cursara a Escola Militar, sem, todavia, chegar a se formar. Do Rio Grande do Sul era originário Júlio Procópio Favila Nunes, onde nascera em 1854. Tendo servido no Exército até 1878, foi comerciante, jornalista e funcionário público. Após a guerra, produziu igualmente sua História de Canudos, de fortuna incerta: publicada em fascículos, por bibliografia da campanha de Canudos.

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O trecho acima faz parte do livro No calor da hora – a guerra de Canudos nos jornais, de Walnice Nogueira Galvão, que será relançado, depois de décadas fora de catálogo, pelo selo Pernambuco, da Cepe Editora, durante a 17ª Festa Literária Internacional de Paraty, que prestará homenagem a Euclides da Cunha. Walnice está confirmada para uma das mesas da Flip, que este ano homenageia Euclides da Cunha. 

Foto: Imagem da guerra de Canudos

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