“Os Banhos – Drama em Seis Atos com Circo e Fogos de Artifício” foi a última peça de Maiakóvski, escrita em 1930 a pedido do diretor e seu grande admirador Meyerhold e encenada no Teatro Estatal V. Meyerhold, há exatos 29 dias antes do suicídio do grande poeta. Maiakóvski, que desde os 15 anos de idade havia dedicado toda sua vida e sua arte aos ideais da revolução de 1917, treze anos após a tomada do poder pelos soviéticos estava muito decepcionado pelos rumos tomados pela história e criticava duramente a burocracia que havia se instaurado no poder. “Os Banhos” queria dar um banho nos burocratas e lavar a União Soviética destes tipos antirrevolucionários que, segundo Maiakóvski, eram um desvio nos caminhos que poderiam levar ao futuro e à construção do socialismo.

 Como era de se esperar, a peça foi muito criticada pelos órgãos do poder. Imagina-se que esta tenha sido mais uma das inúmeras decepções que levaram ao suicídio do poeta, em 14 de abril de 1930. “Os Banhos” foi proibida por Stálin e voltou a ser encenada, poucas vezes, somente após 1955.

A presente tradução do original russo, inédita em português, foi elaborada para a tese de doutoramento de Reni Chaves Cardoso, na USP, sobre a encenação original da peça. O trabalho está no livro recém-lançado Uma poética em cena, que vem com uma tradução inédita do poeta e tradutor Luiz Sampaio; um ensaio de Reni Chaves Cardoso (1945 – 2008), pesquisadora de teatro e doutora pela Universidade de São Paulo, sobre a encenação original por Meyerhold e Maiakósvki (Moscou – 1930). Inclui, ainda, o texto da peça “A Barraca de Feira”, de Alexandr Blok (1906) e uma proposta de encenação meyerholdiana, com desenhos de cenário, máscaras e figurinos, elaborada pela autora.

***

Leia um trecho da peça:

Os Banhos – Drama em Seis Atos Com Circo e Fogos de Artifício

VLADÍMIR MAIAKÓVSKI

Tradução do original russo por Luiz Sampaio

Revisão Boris Schnaiderman

 

PERSONAGENS

Camarada Pobiedonóssikov: chefe supremo da Direção Para a Coordenação/chefe supremo dos Umbigos

Pólia: sua esposa

Camarada Optimístienko: seu secretário

Isaac Belviedónski: retratista, pintor de batalhas e paisagens

Camarada Momentálnikov: repórter

Mister Pont Kitch: estrangeiro

Camarada Underton: datilógrafa

Peculador Nótchkin

Camarada Velocipiédkin: guarda popular da cavalaria ligeira

Camarada Tchudakov: inventor

Madame Mezaliânsova: colaboradora da Sociedade das Relações Culturais Com o Exterior

Camarada Fóskin                  |

Camarada Dvóikin                | operários

Camarada Tróikin                 |

Peticionários

Presidente do Comitê da Habitação

Diretor Teatral

Ivan Ivanóvitch

Lanterninha

Mulher Fosforescente

Multidão da Repartição

Guarda Civil

Ato I

[1] À direita, uma mesa. Outra à esquerda. Desenhos técnicos pendentes de todos os lados e esparramados por toda parte. No centro, o Camarada Fóskin solda o ar com um maçarico. Tchudakov ziguezagueia ao redor, reexaminando um desenho.

[2] VELOCIPIÉDKIN (entra correndo):E então? Ainda é no mar Cáspio que essa droga de Volga continua a desaguar?

[3] TCHUDAKOV (brandindo o esquema):Sim, mas isso agora é por pouco tempo!  Penhore. Venda o relógio. É hora de pôr os relógios no prego!

[4] VELOCIPIÉDKIN: Ainda bem que eu nem cheguei a comprar!

[5] TCHUDAKOV: Não compre! Não compre de jeito nenhum! Logo, logo, essa estupidez achatada e tiquetaqueante ficará mais ridícula do que uma gota na usina do Dniepr[1]e mais impotente do que um touro na Sociedade de Colaboração Para o Desenvolvimento do Automobilismo e Melhoria das Estradas[2].

[6] VELOCIPIÉDKIN: Quer dizer que transformamos a Suíça num inseto?

[7] TCHUDAKOV: Nem toque com sua língua as mesquinhas contas públicas atuais! Minha ideia é mais grandiosa. O Volga dos tempos humanos, no qual estamos nós, como troncos na correnteza, arremessou nosso nascimento, arremessou a se revolver rio abaixo. Esse Volga, de agora em diante, nos obedecerá. Eu obrigo o tempo a parar e a avançar em qualquer direção e em qualquer velocidade. As pessoas poderão saltar do dia, como passageiros do bonde ou do ônibus. Com a minha máquina, você pode parar um segundo de felicidade e aproveitá-lo durante um mês, até enjoar. Com a minha máquina, você pode redemoinhar num turbilhão os longos e arrastados anos de tristeza. Basta meter a cabeça entre os ombros e, sobre você, sem roçar e sem ferir, cem vezes por minuto a bala do sol passará como um relâmpago, dando fim aos dias negros. Olha, os fogos de artifício das fantasias de Wells, o cérebro futurista de Einstein, o hábito que as feras têm de hibernar, como os ursos e os iogues – tudo, tudo está prensado, comprimido e reunido nessa máquina.

[8] VELOCIPIÉDKIN: Eu não estou entendendo quase nada, mas em todo caso também não estou vendo absolutamente nada.

[9] TCHUDAKOV: Então vê se bota os óculos! O das chapas de platina e cristal como raios de sol está te cegando. Está vendo? Está vendo?

[10] VELOCIPIÉDKIN: É, estou vendo…

[11] TCHUDAKOV: Olha, você notou estas duas réguas, horizontal e vertical, com subdivisões, como numa balança?

[12] VELOCIPIÉDKIN: É, estou vendo…

[13] TCHUDAKOV: Com estas réguas você calcula a cubagem do espaço necessário.  Olha, você está vendo este controle com rodas?

[14] VELOCIPIÉDKIN: É, estou vendo…

[15] TCHUDAKOV: Com esta chave você isola o espaço incluído e livra de todo peso as correntes de gravitação, e daí, com estas alavanquinhas esquisitas, você põe em marcha a velocidade e a direção do tempo.

[16] VELOCIPIÉDKIN: Estou entendendo! Magnífico! Excepcional!!! Quer dizer que se, por exemplo, se reúne o Congresso Soviético Sobre o Apaziguamento das Questões Ferventes, e, é claro, apresenta-se a sugestão de saudar, em nome da Academia Estatal de Artes Científicas, o Camarada Estatal Kogan[3], tão logo ele inicie “Camaradas, por entre os tentáculos do imperialismo internacional ressalta, como um fio vermelho, uma onda…”, eu o isolo na tribuna e arremesso o tempo na velocidade de cento e cinquenta minutos a cada quarto de hora. Ele vai suar, saudar, saudar, suar por uma hora e meia, e o público olhando: basta o acadêmico escancarar a boca – e já os aplausos ensurdecedores. Todos suspiram aliviados, os traseiros fresquinhos erguem-se das poltronas, e ao trabalho! É assim?

[17] TCHUDAKOV: Putz, que nojo! Por que você empurra pra mim um Kogan qualquer? Eu estou te explicando que esse é um negócio de relatividade universal, um assunto da conversão da determinação do tempo a partir da substância metafísica, do imaginário em realidade, sujeita a efeitos químicos e físicos…

[18] VELOCIPIÉDKIN: E eu estou dizendo o quê? É isso que eu estou dizendo: você mesmo constrói uma estação real, totalmente sujeita aos efeitos químicos e físicos, e dela nós ligaremos cabos, digamos, em todas as incubadoras de galinhas – em quinze minutos criamos uma galinha de oito quilos e depois desligamos o tempo na tomada embaixo da asa dela – e espere sentada, galinha, enquanto não te fritam e te comem.

[19] TCHUDAKOV: Que incubadoras! Que galinhas?!!! Eu te…

[20] VELOCIPIÉDKIN: Está legal, tudo bem, vai ver que você pensa em elefantes ou em girafas, se pensar em bichos pequenos é humilhante pra você. Mas nós mesmos adaptamos tudo isso aos nossos franguinhos cinzentos…

[21] TCHUDAKOV: Mas que estupidez! Estou achando que você, com esse seu materialismo prático, logo, logo, me transforma numa galinha também. De repente eu bato asas e quero voar – aí você me depena.

[22] VELOCIPIÉDKIN: Tudo bem, tudo bem, não esquente. Mesmo que eu te arranque alguma pena, me desculpe, eu a coloco de volta em você.  Voe, plaine, fantasie, nós somos colaboradores e não obstáculos ao seu entusiasmo. Vamos, não se irrite, rapazinho, ponha em marcha, faça rodar a sua máquina. Posso ajudar em alguma coisa?

[23] TCHUDAKOV: Atenção! Basta eu tocar na roda e o tempo avança em disparada, e o espaço que encerramos na gaiola de isoladores começa a se comprimir e a se transformar.  E aí eu tiro o ganha-pão de todos os profetas, cartomantes e adivinhos.

[24] VELOCIPIÉDKIN: Espera aí, Tchudakov, deixa eu ficar de pé aqui. Pode ser que em cinco minutos eu me transforme de jovem comunista em uma espécie de Marx barbudão. Ou não, vou ser um velho bolchevique com trezentos anos de antiguidade. Então aprovo imediatamente tudo o que você quiser.

[25] TCHUDAKOV (puxando-o para longe, assustado):Cuidado, seu louco! Se nos anos futuros passar aqui uma estrutura de aço de uma estação subterrânea, colocando seu corpinho frágil na superfície ocupada pelo aço, você vira pó dental num instante. E pode ser que no futuro os vagões descarrilem e, então, com um tremor de tempo de mil graus sem precedentes, destrocem e despachem pra vó do diabo todo o subsolo. Agora é perigoso se intrometer lá, é preciso esperar aqui os que vêm de lá. Eu giro devagar – devagar – pra cada minuto, cinco anos…

[26] FÓSKIN: Espere aí, camarada, espere um minutinho. Queira ou não queira, você vai ficar aí girando a máquina. Faça um favor: enfie na sua máquina a minha apólice – não foi à toa que eu me agarrei a ela e não a vendi –, quem sabe em cinco minutos eu já ganhe cem mil…

[27] VELOCIPIÉDKIN: Adivinhou! Então tem que enfiar lá dentro todo o Comissariado Popular[4], com Briukhánov e tudo, senão, se você ganhar, eles não vão acreditar – vão pedir o talão.

[28] TCHUDAKOV: Mas vejam só! Estou abrindo pra vocês as portas do futuro e vocês rastejam por um rublo… Fora, materialistas históricos!

[29] FÓSKIN: Mas você é uma besta! Eu corro pra você com o prêmio ganho! Você tem dinheiro para o seu experimento?

[30] TCHUDAKOV: É… temos dinheiro?

[31] VELOCIPIÉDKIN: Dinheiro?

[32] Batida na porta. Entram Ivan Ivanóvitch, Pont Kitch, Mezaliânsova e Momentálnikov.

[33] MEZALIÂNSOVA (para Tchudakov):Du iú spik inglish? Entãosprechen zi dóitch?  Parlê vu francé, afinal? Ah! Eu já sabia! É muito fatigante. Eu sou coagida a fazer traduccióndo nosso idioma para o idioma operário-camponês. Messiê Ivan Ivanóvitch, Camarada Ivan Ivanóvitch!  Logicamente, o senhor já conhece Ivan Ivanóvitch?

[34] IVAN IVANÓVITCH: Bom dia, bom dia, querido camarada! Fique à vontade! Eu apresento os nossos êxitos, como gosta de falar Aleksei Maksímitch[5].  Eu mesmo, às vezes… o senhor sabe, esta sobrecarga! A nós, operários e camponeses, é muito, muito necessário o nosso Edison vermelho. É lógico, a crise do nosso crescimento, pequenas falhas do mecanismo; derrubam as florestas – lascas voam…[6]  Um esforço a mais – e isso terá fim.  O senhor tem um telefone? Ah, o senhor não tem telefone! Então, falarei com Nikolai Ivanóvitch. Ele não negará. Mas, se ele negar, é possível ir a Vladímir Panfilitch em pessoa.  Ele, logicamente, concordará. Pois até mesmo Semión Semiónovitch sempre diz: “É necessário”, diz ele, “a nós, operários e camponeses, é necessário o Edison vermelho, o nosso Edison soviético”. Camarada Momentálnikov, é preciso começar uma grande campanha.

[35] MOMENTÁLNIKOV:

Etchelência, ordene!

Nosso apetite é pequeno.

Basta ta-ta-tarefa nos dar

e tudo cumprimos num piscar.

[36] MEZALIÂNSOVA: Messiê Momentalnikóv, Camarada Momentálnikov!  Colaborador! Companheiro![7]Ele vê – o poder soviético avança – ele adere. Vê – nós avançamos – ele entra na dança.  Depois vê – eles passam – ele se manda.

[37] MOMENTÁLNIKOV: Perfeitamente, perfeitamente correto: colaborador!  Colaborador das imprensas pré-revolucionária e pós-revolucionária. E apenas a revolucionária não calhou, compreende? Aqui, brancos; lá, vermelhos; acolá, verdes[8]. Crimeia[9], clandestinidade… Fui obrigado a comerciar numa vendinha. Não minha, do meu pai, ou melhor, apenas de um tio, ao que parece. Eu próprio sou operário por convicção. Sempre disse que era melhor morrer sob a bandeira vermelha do que debaixo da cerca. Sob esse lema, pode-se unificar a grande quantidade de intelectuais do meu tipo. Etchelência, ordene – nosso apetite é pequeno!

[38] PONT KITCH: He! He!

[39] MEZALIÂNSOVA: Pardon! Perdão! Mister Pont Kitch, senhor Pont Kitch. Anglo-saxão britânico.

[40] IVAN IVANÓVITCH: Os senhores estiveram na Inglaterra? Ah! Eu estive na Inglaterra!… Ingleses por todos os lados… Por falar nisso, comprei um boné em Liverpool e visitei a casa onde nasceu e viveu Antidurin[10]. Extremamente interessante! É preciso começar uma grande campanha.

[41] MEZALIÂNSOVA: Mister Pont Kitch, filatelista famoso, famoso em Londres, na City. Filatelista (ce con apéle, em russo, seloamador) e ele se interessa muito, muito por indústrias químicas, aviação e artes em geral. É um homem muito, muito culto e comunicativo. É até um mecenas.Ce con apéle… mas como traduzir-lhes?… lá, auxilia os cineastas, os inventores… hum… algo assim do tipo como se fosse a Inspeção Operário-Camponesa[11], só que ao contrário… Vu comprenê? Ele já viu Moscou do arranha-céu “Izvestia” (Nakhrikhten)[12], já visitou Anatol Vassílitch[13]e agora quis vir à sua casa… Tão culto, comunicativo, até nos deu o endereço dos senhores.

[42] FÓSKIN: Verme narigudo. E tem faro!

[43] MEZALIÂNSOVA: Plis, sâr!

[44] PONT KITCH: Ah, Ivan rugiu à porta e as feras almoçaram. Ah, foi ao paraíso o meniquime o castor para o Industão, apimentou as feras anventoras[14].

[45] MEZALIÂNSOVA: Mister Pont Kitch quer dizer, em sua língua nativa, que na sua nublada pátria todos, de MacDonald a Churchill, estão exatamente como feras, interessados na invenção dos senhores e ele pede muito, muito…

[46] TCHUDAKOV: Mas é claro! A minha invenção pertence a toda a humanidade e eu, é claro, agora mesmo… Eu estou muito, muito feliz. (Conduz o estrangeiro, que tem nas mãos um caderno de notas. Mostra e explica.)É assim. Sim… sim… sim… Aqui, duas alavanquinhas, e na régua paralela de cristal… Sim… Sim… Sim… Olha aqui! E isto é assim… É sim…

[47] VELOCIPIÉDKIN (empurrando Ivan Ivanóvitch):Camarada, é preciso ajudar o rapaz. Eu andei por toda parte onde “não entre sem ser anunciado” e fiquei horas plantado em todos os lugares onde “expediente encerrado”, e assim por diante, e quase passei a noite sob uma placa “se a pessoa a quem você busca está ocupada, retire-se” – e não consegui nada. Por causa de tanta burocracia e do medo de alocar um punhado de notas de dez rublos, talvez uma grandiosa invenção vá por água abaixo. Camarada, você deveria, com a sua autoridade…

[48] IVAN IVANÓVITCH: Sim, é terrível! Derrubam as florestas – lascas voam. Eu vou imediatamente à Direção Central Para a Coordenação. Vou falar agora mesmo com Nikolai Ignatitch… E, se ele negar, vou conversar com Pavel Varfolomeitch em pessoa… O senhor tem telefone? Ah! O senhor não tem telefone! Pequenas falhas do mecanismo… Ah! Que mecanismos na Suíça!… O senhor esteve na Suíça? Eu estive na Suíça. Somente suíços por toda parte. Extremamente interessante!

[49] PONT KITCH (pondo o bloco de notas no bolso e apertando a mão de Tchudakov):O avô conduziu o bonde do paraíso, intrometeu-se de porta em porta e não alcançou dificilmente.  Assopra, Ivan.  Dezrubliamos?…

[50] MEZALIÂNSOVA: Mister Pont Kitch diz que se os senhores necessitam de notas de dez rublos…

[51] VELOCIPIÉDKIN: Ele? Ele não precisa. Ele cospe em dez rublos. Eu fui agorinha pra ele ao Banco do Estado e trouxe o banco inteiro em notas de dez rublos. Dá até nojo.  Incomodam no bolso. Olha aqui um bolo de notas de dois, aqui de três e nestes dois bolsos até uma de cem rublos. Ol rait! Gud bai! (Ele sacode a mão de Kitch, o abraça com as duas mãos e com admiração o acompanha até a porta.)

[52] MEZALIÂNSOVA: Eu peço encarecidamente aos senhores um pouquinho de tato: com estas suas maneiras de jovem comunista, amadurecerá, se já não amadureceu, um enorme conflito internacional. Gud bai– até a próxima!

[53] IVAN IVANÓVITCH (batendo no ombro de Tchudakov e despedindo-se):Eu também, na sua idade… Derrubam as florestas – lascas voam. Precisamos, precisamos de um Edison soviético. (Já da porta.)O senhor não tem telefone? Mas não há de ser nada, eu falarei sem falta com Nikandr Piramídonovitch.

[54] MOMENTÁLNIKOV (trota cantarolando):Etchelência, ordene…

[55] TCHUDAKOV (para Velocipiédkin):Ainda bem que temos dinheiro!

[56] VELOCIPIÉDKIN: Nós não temos dinheiro!

[57] TCHUDAKOV: Como assim? Como não temos dinheiro? Eu não estou entendendo por que então se gabar e dizer…  E ainda por cima recusar as propostas sólidas por parte dos estrangeiros…

[58] VELOCIPIÉDKIN: Mesmo sendo gênio, você é um imbecil! Você quer que a sua ideia vire puro ferro e voe da Inglaterra até nós como um encouraçado gigante, transparente, comandando os tempos, e ataque invisivelmente as nossas usinas e sovietes?

[59] TCHUDAKOV: É verdade, sim, é isso mesmo… Como é que eu fui contar tudo a ele? E ele ainda por cima anotou tudo naquele bloco. E por que é que você não me avisou? E ainda o acompanha pessoalmente até a porta, o abraça!…

[60] VELOCIPIÉDKIN: Sua besta, eu não o abracei à toa. A minha condição de criança de rua me ajudou. Não foi ele que eu abracei, mas o bolso dele! Olha aqui, um bloco de notas inglês. O inglês o perdeu.

[61] TCHUDAKOV: Bravo, Velocipiédkin! Mas, e dinheiro?

[62] VELOCIPIÉDKIN: Tchudakov, eu estou aqui para tudo. Vou abocanhar as goelas e devorar os gogós. Vou lutar tanto que as bochechas vão voar pelos ares. Eu convenci, eu vociferei com o tal Optimístienko. Ele é liso e polido como uma bola de bilhar. Na sua polidez de espelho, somente as autoridades se refletem e, mesmo assim, de cabeça para baixo. Eu, com a minha agitação, quase ganhei o contador Nótchkin. Mas o que se pode fazer com o maldito Camarada Pobiedonóssikov? Ele simplesmente esmaga todo mundo com os seus méritos e o seu tempo de casa. Você conhece a biografia dele? Para a pergunta “O que fez até 1917?”, respondia no questionário: “Estive no partido”. Em qual não se sabe, é segredo. O que para ele é “b” ou “m”[15]ficou entre parênteses e pode ser que ele não fosse nem “b” nem “m”. Depois ele fugiu da prisão cobrindo de tabaco os olhos dos guardas. E agora, 25 anos depois, o próprio tempo cobriu os olhos dele com o tabaco das ninharias e dos minutos. Seus olhos lacrimejam de abundância e benevolência. O que se pode ver com esses olhos? Socialismo? Não. Só o tinteiro e o mata-borrão.

[63] FÓSKIN: Camaradas, mas vocês acham que eu vou soldar com cuspe ou o quê?  Aqui precisamos de mais dois. Duzentos e sessenta rublos no minimáximo.

[64] PÓLIA (entra correndo, sacudindo um maço de notas):Dinheiro – engraçado!

[65] VELOCIPIÉDKIN (entrega o dinheiro a Fóskin. Fóskin sai correndo): Vai, corre!  Toma um táxi! Arranje material, ajudantes, e já de volta! (Para Pólia.)Como foi, convenceu as autoridades do círculo familiar?

[66] PÓLIA: E por acaso com ele pode ser simples? Engraçado! Ele chia como uma jiboia de papel toda vez que volta pra casa grávido de resoluções. Não é engraçado. É Nótchkin… é este contadorzinho da sua repartição, eu o vi, assim, pela primeira vez…  Correu até mim hoje no almoço, passou um pacote, “entregue”, disse-me ele… “é segredo”… Engraçado! E eu não posso falar com ele… devido à possibilidade de suspeita de cumplicidade. Não é engraçado.

[67] TCHUDAKOV: Vai ver que este dinheiro…

[68] VELOCIPIÉDKIN: É. Aqui há sobre o que pensar. Alguma coisa me diz… Tudo bem! Dá na mesma! Amanhã a gente vê isso.

[69] Entram Fóskin, Dvóikin e Tróikin.

[70] Pronto?

[71] FÓSKIN: Pronto.

[72] VELOCIPIÉDKIN (ajuntando o grupo):Então vamos! Mãos à obra, Camaradas!

[73] TCHUDAKOV: Bem, bem… Os condutores estão soldados. Os isoladores estão em ordem. Tensão regulada. Creio que podemos avançar. Primeira vez na história da humanidade…  Afastem-se! Vou ligar… Um, dois, três!

[74] Explosão de fogos de artifício, fumaça. Afastam-se cambaleando. Depois de um segundo, afluem ao lugar da explosão. Tchudakov agarra, queimando-se, um resto de papel celofane, com um canto rasgado.

[75] TCHUDAKOV: Pulem! Gargalhem! Olhem isto aqui! É uma carta! Foi escrita cinquenta anos à frente. Entendam – à frente!!! Que extraordinaríssima palavra! Leiam!

[76] VELOCIPIÉDKIN: Ler o quê?… “LG 4-24-20″. O que é isso, o telefone de algum camarada LG?

[77] TCHUDAKOV: Não é um “LG”, mas “lo-go”. Eles escrevem somente as consoantes, e 4 é o indicador da vogal, pela ordem. A-e-i-o-u: “logo”. Economia de 25% no alfabeto. Entendeu? 24 é o dia de amanhã; 20 é a hora. Ele ou ela estará aqui logo mais amanhã às 8 da noite. Catástrofe? O quê?… Você vê, vê este canto todo rasgado e chamuscado? Significa: no caminho do tempo havia um obstáculo, um corpo que, em um dos cinquenta anos, ocupava o espaço agora vazio. Daí a explosão. Para não matar os que vêm de lá, precisamos imediatamente de gente e dinheiro… Muito! Precisamos levar imediatamente o nosso experimento a um espaço o mais alto possível, na mais deserta amplidão. Se não me ajudarem, eu carrego a máquina nas costas. Mas amanhã estará tudo resolvido.

[78] Camaradas, venham comigo!

Atiram-se à porta.

[79] VELOCIPIÉDKIN: Vamos, camaradas, agarrá-los pelos colarinhos, nós os forçaremos!  Eu vou devorar os burocratas e cuspir os botões.

[80]A porta escancara-se em direção a eles.

[81] SÍNDICO DO COMITÊ DE MORADORES: Quantas vezes eu lhes disse: varram-se daqui com o seu negocinho particular. Vão feder lá pra cima na direção do locatário responsável, o Camarada Pobiedonóssikov. (Percebe Pólia.) E… e… e… a senhora aqui?! Eu lhes digo: Deus que ajude a vossa atividade social. Eu tenho reservado para vocês um maravilhoso ventiladorzinho. Passar bem!

FIM DO  1º  ATO 

[1]No original russo, a sigla DNIEPROSTROE, referência à construção estatalda represa do rio Dniepr.

[2]No original, a sigla AVTODOR, aqui traduzida por extenso. Essa sociedade existiu entre 1927 e 1935.

 

[3]Kogan, adversário de Maiakóvski, era o então Presidente da Academia Nacional de Ciências Artísticas.

 

[4]Maiakóvski usa a sigla dessa organização: NARKOMFIN.

[5]Tratamento de relativa proximidade a Aleksei Maksímovitch Górki, que na época dirigia a revista Nachi Dostigênia(Nossos Êxitos).

[6]Expressão equivalente a “Não se faz um omelete sem quebrar os ovos”.

[7]No original, poputchik(Companheiro de Jornada). Assim se chamavam os aliados temporários, simpatizantes da revolução.

[8]“Verdes”, denominação de grupos guerrilheiros durante a Guerra Civil, tanto na retaguarda dos “brancos” como dos “vermelhos”.

[9]Crimeia, referência às derrotas dos “brancos”, decidida pela tomada do Istmo de Periekóp, que separa a Crimeia do continente.

[10]Ivan Ivanóvitch confunde Engels com sua obra em colaboração com Marx, Anti-During. Em versão anterior, Maiakóvski escreve: “a casa onde nasceu e viveu Marx Engels”. Há confusão também entre Liverpool e Manchester, onde viveu Engels.

[11]No original, a sigla desta organização (RKI), que existiu entre 1920 e 1934.

[12]Referência ao jornal Izvestia(A Notícia), que Mezaliânsova cita também em alemão.

[13]Anatol Vassílitch Lunatchárski, Comissário de Educação.

[14]Sem sentido no original. Nas falas dessa personagem, Maiakóvski fez uso de palavras russas homófonas às inglesas, daí “Indostan” (Industão) por “I understand”, por exemplo. A palavra “meniquim” está transliterada erroneamente do francês, levando em consideração o sotaque inglês de Pont Kitch.  A palavra “anventoras” aparece com erro de grafia em russo, também buscando transliterar erro de pronúncia.

 

[15]”Nem be nem me”, expressão coloquial que corresponde a “bulhufas”. Neste caso, faz referência também a bolcheviques e mencheviques.

 

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